Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

Elis Regina Especial

Não quero lhe falar meu grande amor...

Elis Regina parte 1

23 anos sem Elis Regina






Amigos e amigas.Hoje exatamente hoje, completa-se 23 anos que Elis Regina morreu.Nesta data eu tinha apenas 4 anos de idade e infelizmente não fui um contemporâneo(foi apenas 4 anos) da maior cantora de todos os tempos,mas não importa quanto mais o tempo passa, mais e mais fãs da Elis aparecem,e isso acontece porque ela foi única.
Quando estamos distraídos ouvindo alguma coisa da MPB inevitavelmente a voz de uma gauchinha vai chamar sua atenção e você pode se perguntar:
-Opa! Que voz é essa? Que mulher é essa? Como canta bem essa tal de Elis regina...
Pronto mais um fã, mais um apaixonado.Não há idade para se ouvir Elis.
E para lembrar esta data que marcou profundamente toda uma geração e uma legião de fãs eu fiz um Especial com alguns textos sobre a pimentinha,espero que gostem.

"Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol. Agora o braço é uma linha, um traço, um rastro espelhado e brilhante. E todas as figuras são assim: desenhos de luz, agrupamentos de pontos de partículas, um quadro de impulsos, um processamento de sinais. E assim ­ - dizem - recontam a vida. Agora retiram de mim a cobertura da carne, escorrem todo o sangue, afinam os ossos em fios luminosos e aí­ estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo. Um rascunho. Um forma nebulosa, feita de luz e sombra. Como uma estrela. Agora eu sou uma estrela."
Elis Regina



No dia 19 de Janeiro mais ou menos na hora do almoço o Brasil parou para tentar entender o que havia acontecido com Elis. Foi tudo muito rápido. No dia seguinte todos os princioais jornais do país davam a notícia que por mais difícil de acreditar e dolorosa era a mais pura verdade .Elis morreu.

“ Perdemos Nossa Melhor Cantora” Jornal da Tarde 20/01/1982.

“ Brasil Chora Morte de Elis” A Notícia ,SC,20/01/1982.

“ O Brasil sem Elis Regina” Folha de São Paulo,20/01/1982

Quem poderia te esquecer...


Não quero lhe falar meu grande amor...
(Como nossos Pais-Belchior)

What can I Say to you Bonita
What magic words capture you(Like a soft evasive ) Mist
You are Bonita you fly away when love is new.

(Bonita-Tom Jobim)

Tu ris ,tu mens trop
Tu pleures,tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau

(Joana Francesa_-Chico Buarque)

Capoeira posso ensinar
Ziquizira posso tirar
Valentia posso emprestar
Mas liberdade só posso esperar

(Upa Neguinho-Edu Lobo /Guarnieri)

Até a lua se arrisca num palpite
Que o nosso amor existe
Forte fraco alegre ou triste

(Madalena-Ivan Lins/Ronaldo Sousa)

Minha dor é perceber
que apesar de termos feito tudo tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos...

Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não...
...Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém...

(Como nossos Pais-Belchior)

Qua quara qua qua quem riu...
Qua quara qua qua fui eu....

(Vou deitar e Rolar-Baden/Paulo Pinheiro)

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza do limites do corpo e nada mais....
Onde eu possa plantar meu amigos meus discos e livros e nada mais...

(Casa no Campo-Rodrix/Tavito)

E quando eu sinto que teus braços se cruzaram em minhas costas
Desaparecem as palavras outros sons enchendo o espaço
Você me abraça a noite passa
Me deixas Louca....

(Me deixas Louca-Manzanero/versão: Paulo Coelho)

Dei pra mal dizer o nosso lar
Pra sujar teu nome
Te humilhar e me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua...

(Atrás da Porta-Chico Buarque/Hime)

Mas é preciso ter força é preciso ter raça é preciso ter gana sempre
Quem trás no corpo a marca Maria Maria mistura a dor alegria.

(Maria Maria- Nascimento/Brant)

Laia ladaia sabadana ave maria (2x)
Se é praga ou oração ,mil vezes cantarei
Laia ladaia sabadana ave maria (2x)

(Reza –Edu Lobo/Guerra)

De tardezinha essa menina se namora
Se enfeita se decora
Sabe tudo não faz mal
Ah,como essa coisa é tão bonita,ser cantora ser artista
Isso tudo é muito bom.

(Essa Mulher-Joyce/Ana Terra)

Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inultilmente a esperança .

(O Bêbado e a Equilibrista-Bosco/Blanc)

Ponta de areia ponto final
Da Bahia –Minas estrada natural
Que ligava Minas ao porto ao mar
Caminho de ferro mandaram arrancar.

(Ponta de Areia-Nascimento/Brant)

Eu hein Rosa se manca segura essa banca de escrupulosa
Eu hein Rosa o meu jogo é na retranca área muito perigosa.

(Eu Hein Rosa-João Nogueira/Paulo Pinheiro)



A alma é um céu
O coração uma lua
Você é uma estrela
Nessa paisagem noturna

Ricardo Viveiros
Minha homenagem a Elis Regina nas palavras do poeta.


Depoimentos do meio artístico

Revista "Amiga TV-Tudo", de 1982

Desde cedo, ao ganhar seu piano de brinquedo, a menina pobre de Porto Alegre (Rio Grande do Sul) mostrou suas aptidões musicais. Adorava cantar sorrindo com os olhos pequenos e estrábicos fechados, como que para se entregar mais a música. A exceção de sua mãe e da avó, os demais parentes foram contra a escolha de Elis pela carreira artística. Uma de suas tias, preconceituosa, não se conformava de vê-la no programa "O Fino da Bossa" abraçando o "crioulo" Jair Rodrigues.




Elis Regina teve força para vencer os obstáculos familiares e sociais. Aos 12 anos, já cantava como crooner em bailes, contrariando sua tia e a professora de francês que dizia que ela não era digna de freqüentar uma sala de aula, ao lado de meninas de família. Como resposta à comparação que a professora fizera, entre cantora e prostituta, Elis usou de sua significativa força, dando-lhe um bofetão. A fama de agressiva e temperamental sempre a acompanhou, embora ela provasse várias vezes ser sensível. Foram inúmeros bailes, até que surgiu um convite para gravar na Continental. Em 1965, Elis ganhou de Edu Lobo e Vinícius de Moraes (que a batizou de "Pimentinha") a música "Arrastão" e de Francis Hime e Rui Guerra "Por Um Amor Maior", defendida no 1º Festival de Música Popular Brasileira, na TV Excelsior. Vencedora com Arrastão, inaugurou uma nova postura cênica, mexendo com os braços desordenadamente e gingando o corpo.
Elis com Jair Rodrigues: O FINO DA BOSSA

Elis passou a comandar, na TV Record, o programa "O Fino da Bossa", um marco na história da música popular brasileira. Durante quatro anos, o programa foi êxito de audiência mas, com o surgimento da Jovem Guarda de Roberto Carlos, viu seus índices caírem. Criou-se, então, uma rivalidade entre os gêneros musicais. Em seguida, comandou o programa "Frente Única", onde se apresentavam os antigos companheiros de O Fino: Chico, Vandré, Caetano, Gil, Rodrigues, Edu Lobo, entre outros. Findo o programa, Elis e Jair fizeram, durante alguns meses, o "Dois na Bossa", na TV Excelsior. Depois, decidiu que não seria mais cantora de televisão "que somente funcionasse num programa". Esta fase se encerrou com o lançamento do disco Dois na Bossa-3 que marcava o fim da dupla Elis e Jair. O próximo disco da cantora trazia várias músicas de Edu Lobo, a quem ela dedicou o trabalho e este passou a ser seu compositor preferido. Seguiu-se a época do Tropicalismo e o brado de Elis contra as guitarras elétricas ainda soava na frase "mais que nunca é preciso cantar o que é nosso". De início, obviamente. Elis não aceitou o movimento que Caetano e Gil fundaram. Mais tarde, declarou: "Eles estavam mexendo muito com minha cabeça e eu caí na arapuca. Caetano é o maior poeta vivo da música popular brasileira." Elis passou então, junto com Gal Costa, a ser uma das maiores defensoras da música e poesia dos baianos.



Elis e os anos de Chumbo

Em 75, a cantora passou a ter posição política definida e num quadro do show fazia uma alusão ao fato que, até então, todos desconheciam: seu envolvimento com o Exército. Elis tinha-se recusado a fazer um comercial sobre as duzentas milhas brasileiras e foi obrigada a fazer uma propaganda sobre a Semana da Pátria. " - Fui interrogada e senti que eles haviam vasculhado minha vida. Tive a maior sensação de impotência da minha vida, mas eles sentiram que eu estava tão de babaca no pedaço e resolveram me soltar. Senti a fraqueza de ser um ser popular na carne. Então, quando eu vejo show para fundo de greve, eu primeiro investigo. Se tiver patrão no lance eu não vou. Show do tipo do 1º de Maio do Riocentro que ninguém vê para onde vai o dinheiro, eu não participo. Eu sou do tempo em que se armava um palco num pátio de fábrica e se cantava. E é o pátio da fábrica que eu quero e gosto."




A partir de Falso Brilhante, todos os shows, à exceção de Essa Mulher (de 79), tinham posicionamento político. Transversal do Tempo, em 79, cuja idéia nasceu de um engarrafamento no trânsito paulista, quando a cantora estava grávida de Maria Rita, contava nos cenários, repertório e figurinos um pouco da história do pais nos últimos tempos. Entretanto, foi com Saudades do Brasil, encenado em 80, que Elis, com vários bailarinos, mal-vestidos, como todos os brasileiros, contava a trajetória de nosso povo. "O Brasil efeito de pessoas feias, mal-vestidas e mal-alimentadas. Se o cara vai no show e se assusta é porque está se vendo no espelho. Este é um anti-show por excelência. Colocamos anúncio no jornal e as pessoas, que não são bailarinos profissionais, se apresentaram. Assim aconteceu com os músicos. Todos são filhos de operários do ABC. Gente que nunca teve a oportunidade de subir ao palco."

Em seu último espetáculo, O Trem Azul, que percorreu o Brasil no ano de 1981, ela já abandonara seus ideais políticos e a vontade de redescobrir sua origem proletária. Num disco e show alegre em que dançava e imitava Renato Aragão, Baby Consuelo, Cid Moreira, ela mostrava estar de bem com a vida, inaugurando o deboche e a sátira no palco. "Amo viver. Viver é lindo. Nos últimos anos compliquei demais minha vida afetiva. Quero tirar as coisa ruins que absorvi. Me purifico com a música e cantar é o que gosto e sei fazer. E o que sempre propus." (Marco Muylaert)

Uma mulher de temperamento forte

O último show ao vivo de Elis Regina foi Trem Azul, no Anhembi (São Paulo), no final de 1981. Como sempre, a cantora, em sua carreira de mais de 20 anos, extasiou o público, arrancando comentários como. "Depois dela ninguém mais devia pisar neste palco" ou "Ouvi Elis cantar, já posso morrer". Elis morre deixando a marca de suas atuações. Cada apresentação sua em rádio, TV ou no palco fica na lembrança. O seu ar empinado faz a gente recordar seu início de carreira em São Paulo, quando no auge do Fino da Bossa, Elis Regina já ganhava o apelido de "Pimentinha". Nunca admitiu que se pisasse nos seus calos, e não escolheu armas contra aqueles que desejavam destruí-la. Brigou, sim; brigou muito. Mas enfrentava os inimigos. Não poupou críticas a Cláudia e Claudete Soares, na mesma época do Fino da Bossa, na TV Record. Na mesma emissora, onde fazia um especial sob o comando do primeiro marido, Ronaldo Bôscoli, Elis, simplesmente dizendo-se cansada, se recusou a posar para o fotógrafo do jornal Última Hora de São Paulo, que inauguraria com Elis, vestindo um costume idealizado pelo costureiro Denner, a nova fase colorida do periódico. Outro episódio que bem caracterizava seu temperamento irascível se registrou no auditório do Clube Círculo Militar, quando um expectador lhe dirigiu um gracejo que envolvia seu atual marido, César Camargo Mariano. Desorientada, ela atirou o microfone ao chão, que acabou atingindo levemente um espectador sentado na primeira fila. Houve muita confusão e Elis, seus músicos e o marido tiveram que sair do local quase escoltados.




"ELA TINHA CERTEZA QUE IA CONQUISTAR O RIO"

O jornalista Renato Sergio escreveu seu primeiro show e conta aqui todos os detalhes da estréia na noite carioca

Um dia isso tudo vai ser meu! O braço esticado, o dedo em riste riscavam o horizonte do Clube Marimbás ao morro do Leme, num gesto lento, numa panorâmica cinematográfica, da direita para a esquerda. Estávamos - Elis e eu - sentados na parte de dentro (era inverno no Rio e a noite estava fria para se ficar no terraço) de um bar-restaurante chamado Alcazar, no Posto 6 de uma Copacabana de 1963 ainda não aterrada. Ela tinha saldo de um dos poucos ensaios para um show com Simonal, que nunca chegou a ir à cena, no antigo Teatrinho de Bolso da Praça General Osório (onde depois existiu a boate Privé), numa Ipanema bucólica que não volta mais. Eu era editor de um noticiário chamado Telejornal Pirelli, que ia ao ar todos os dias às 15 para as oito da noite, menos aos domingos, lido pelo Léo Batista, com comentários do Heron Domingues. Mas, como sou um músico frustrado, compensava minhas carências melódicas participando das equipes de alguns programas musicais da velha TV Rio, naquele tempo campeã de audiência (as outras eram a TV Tupi e a TV Continental). Escrevia os scripts de um programa chamado Garçon Garante o Espetáculo, apresentado pela cantora Marlene, devidamente maquilada por um moço chamado Astolpho, depois transformado em Rogéria, o travesti. Também escrevia as falas de outro moço que começava a aparecer na televisão, aos sábados à tarde (com um Tremendão e uma Ternurinha) chamado Roberto Carlos. Enfim, eu participava, como podia, de tudo que pintava, em letra e música. Por isso estava ali, naquele bar, vendo e ouvindo, para nunca mais esquecer, o gesto e as sete palavras que mais me impressionaram em toda a minha vida, pela certeza absoluta que expressavam.

"Um dia isso tudo vai ser meu!"

A gente tinha caminhado - me lembro bem do termo caminhar, meio curioso para um paulista que havia chegado ao Rio quatro ou cinco anos antes - da Praça General Osório até o Posto 6, a pé. Elis falando, falando, falando, entre longos silêncios. "Estranha, essa menina" - eu pensei. Na verdade estava fascinado diante de uma personalidade tão forte, principalmente - sorry, Jane Fonda - numa mulher. Ela falante, eu fascinado, íamos. E ela repetiu, pela terceira vez: "Um dia Isso tudo vai ser meu!" Um dia, eu estava na redação do telejornal, quando um amigo, Roberto Jorge, filho da atriz Gracinda Freire, veio me convidar para fazer um show com uma cantora fantástica, que havia topado a parada. Era Elis (que todo o mundo só chamava de Elis, até hoje não sei por quê). A proposta do Roberto era de fazermos juntos, eu escrevendo o script e ele dirigindo, nós dois produzindo. Era um desafio. Porque era no Bottle's, um barzinho do Beco das Garrafas onde tinha nascido a bossa nova, numa etapa posterior às reuniões da casa de Nara Leão. Segundo Roberto Jorge, o dono não acreditava muito na coisa, nem conhecia a moça, mas ia arriscar. Seu nome: Alberico Campana (hoje, um dos sócios da badalada Churrascaria Leblon), um italiano responsável por muita gente boa que anda por aí na música popular brasileira. Topei. Pela frase. Roberto e eu fomos até a Florentina, para conversar sobre o show, como é que podia ser feito. Bebemos mais do que tratamos do show. Só no dia seguinte é que me veio a idéia, relendo papéis velhos: eu tinha escrito um show para o Tamba Trio de Luizinho Eça, Hêlcio Milito e Bebeto. Estava tudo ali. E inédito, porque era a primeira vez que textos e poesias brasileiros entrariam na noite, entremeados de canções, tudo interligado. Rescrevi, no ato. E começamos a visitar o Beco, todas as noites, para ela conhecer e ficar conhecida. Parecia uma garotinha diante dos presentes de uma árvore de Natal. Não conseguia se encostar na cadeira, de tão envolvida pelo que via e ouvia. O baterista Edson Maluco Machado, especialmente, a alucinava. A canja era uma instituição local: tocar por tocar, pelo prazer de fazer música, porque o dinheiro era pouco (ou nenhum). E todos davam canja, de Sérgio Mendes, sem barba e sem dólares, a Jorge Ben, ainda Jorge Babulina; de Marcos Vale a Edu Lobo, ainda "o filho do Fernando Lobo". O Quarteto em Cy estava fazendo o show do Bottle's, com as Cynaras e Cybeles originais, recém-chegadas da Bahia, bem antes dos Caetanos e Gaís da vida. João Gilberto era o deus de todos.

Elis morava na Rua Barata Ribeiro, 200, num apartamento que, da porta de entrada, já se via tudo. Ela, a mãe, o pai, o irmão menor, e todos os gaúchos desgarrados que chegavam ao Rio sem pousada certa ou sem verba para se abrigar melhor enquanto as coisas não melhoravam. Seu pai - nunca soube o nome dele - era o sujeito mais calado que eu tinha visto até então: só fazia fumar. E muito. Era um cigarro que ficava pendurado no canto da boca e não cheirava lá muito bem. Um homem muito estranho. Tão estranho, que só deixava a filha, Elis, sair comigo. Com outros, ele ia junto. Acho que era porque meus cabelos já estavam começando a embranquecer, sei lá. Ou porque o gauchão era trilegal e eu não sabia. Lembro dela, rindo, muito, porque não conseguia abrir a porta do apartamento. Mais de duas da madrugada, nós dois de volta de nova noitada no Beco, vendo e ouvindo os monstros (grandes que estavam nascendo por lá). Eu, responsável pela sorte da moça, cavalheiro, aguardando que ela entrasse para dormir. E ela não conseguindo entrar, porque havia um hóspede deitado bem na frente da porta. A lotação do apartamento estava mais do que esgotada. Começaram, por fim, os ensaios daquele que seria o seu primeiro show na noite. O Bottle's não tinha mais do que 40 metros quadrados, um balcão mínimo e um palco (palco?) pouquinha coisa maior. Ao piano, Salvador, um crioulo maravilhoso, recém-chegado de São Paulo e sonhando com Nova Iorque, onde hoje é famoso e prestigiado, como Dom Salvador. Na bateria, Do Um Romão, então marido de Flora Purim (da qual todos os músicos do Beco fugiam, na hora em que ela queria dar canja, cantando; todos a achavam desafinadissima, inclusive eu), hoje em Los Angeles e Nova Iorque, depois de tocar com o Sérgio Mendes, já famoso; no baixo, acústico, enorme, Gusmão, agora meio desaparecido. As falas, entre uma música e outra, corriam por conta de Íris Lettieri, a inconfundível voz que anuncia chegadas e partidas no Aeroporto Internacional do Galeão. Cada ensaio era como se fosse uma estréia: pra valer. Ela dava tudo de si, sempre. Era a primeira a chegar, a última a sair. E queria começar o pocket-show (era assim que a gente chamava os espetáculos do Beco, que eram shows-de-bolso, na verdade) com The Lady is a tramp. Foi duro convencê-la de que era melhor começar com uma música brasileira, apesar de sua belíssima pronúncia cantando em inglês. Foi quando Edu, ainda Eduardo Lobo, tímido e candidato a namoradinho, freqüentador assíduo dos ensaios, compôs, a pedido nosso, uma música para abertura. Silvio César fez outra, para encerrar. O nome era uma gíria local: Sosifor (corruptela de "Só se for agora"). Na véspera da estréia, Lennie Dale, que tinha um show no vizinho Little Club, veio ajudá-la no comportamento cênico: daí nasceram aqueles movimentos de braço, depois, sua marca registrada.

Estréia. Casa cheia. O que significava 80 pessoas. Superlotação, de Maracanã em dia de Flamengo e Vasco disputando campeonato carioca, para o minúsculo Bottle's. Jorge Babulina Ben e Zê Kéti sentados no chão. Gente por todo lado. Espiões dos outros dois bares do Beco, firmes e fortes. De repente, quem entra? O fiscal do Juizado de Menores. E Elis só faria 18 anos meses depois. Escondemos Elis no sótão do Bottle's onde mal cabia uma dúzia de garrafas. Ela coube, sabe lá Deus como. Ficou quase uma hora lá em cima; cá embaixo, nós, argumentando com o tal fiscal. Me lembro, era um gordo e de cabelo cortado recruta do Exército. Como já era o país do "vamos dar um jeitinho", jeitinho foi dado. Sob a promessa de que, no dia seguinte, a permissão paterna estaria transformada em documento. Não entrou nem um tostão no lance, juro (pelo menos do meu bolso). Luzes apagadas, começa o espetáculo. Delírio. As luzes, sobre os músicos e sobre ela, eram na base da lanterna, dessas de pilha e tudo, nas mãos dos garçons da casa. Roberto Jorge fumava: eu bebia. Ela cantava (e como cantava!); íris falava (e como falava !. Era música e poesia. Muitas palmas, muitas.Assim foi. Mais ou menos duas semanas depois, a casa cheia (dias antes Heron Domingues tinha ido assisti-la e chorou de emoção; nunca tinha ouvido uma voz tão comovente, logo ele, de voz tão comovedora) e nada de Elis chegar. Eu e Roberto Jorge, Alberico e Salvador, Do Um e Gusmão e todo mundo nervoso, sem saber o que tinha acontecido. De repente, o telefone. Era ela. De São Paulo, dizendo que não tinha teto e não podia voltar para fazer o show daquela noite. Eu olhei pro Roberto, ele pra mim. Tinha teto pro Simonal, pro Jorge Ben, pro Sérgio Mendes, pro Marcos Vale, tinha teto para todos, menos para ela. Qualé? Não teve show. Naquela mesma noite, eu e Roberto Jorge começamos a bolar um novo show, pra quando ela chegasse de São Paulo (quando tivesse teto para ela)já visse outro cartaz na porta. Tinha. Leny Andrade, Raulzinho do trombone-de-piston (hoje com seis ele-pés gravados nos Estados Unidos, como solista principal, com o nome de Raul de Souza), Antônio Adolfo ao piano, um Monjardim primo da Maísa no baixo elétrico e não me lembro mais quem, na bateria. E duas tumbadoras: Jorginho Arena e Rubens Bassini (que foi para os Estados Unidos com Sérgio Mendes e está por lá até hoje). Na porta o cartaz anunciava: Tamosai (corruptela do nome da música que abria e encerrava o show: Estamos Aí). Elis chegou. Não deu uma palavra. Virou as costas e foi-se. Uma semana depois era nossa concorrente, fazendo um show no Little Club, agora com Miéle e Bôscoli, Lennie Dale, Luiz Carlos Vinhas e tal. Nós, de Leny Andrade & Cia. Nunca mais Elis falou comigo. Diziam até que ela daria entrevista para qualquer jornalista brasileiro, menos pra mim. Vieram me dizer Isso. Depois, soube que disseram a ela que eu entrevistaria qualquer pessoa, menos ela. Mentiras. Nem ela nem eu estávamos preocupados com uma briga que não houve. Apenas eu tinha achado que ela deveria ter sido sincera e contar a verdade - talvez algum show de última hora, dinheiro vivo, em São Paulo - naquela tal noite que "não tinha teto". E ela, enfurecida com a solução que eu e Roberto tínhamos dado, exatamente para enfurecê-la.

Não nos falamos exatamente durante 17 anos (também não nos cruzamos, em lugar nenhum, durante todo esse tempo). Até que ela veio mostrar, no Canecão, um dos seus mais perfeitos espetáculos: Saudade do Brasil. Uma coisa altissimamente profissional e comovente. Fui à estréia e me arrepiei. Dias depois, voltei. Minha mulher me intimou: "Vamos falar com ela?" Disse que não ia, que era a última coisa que eu faria na vida. Mas fui. Camarim dela. Minha mulher, eu, e poucas pessoas. na salinha de espera, branca e bonita. Quando Elis saiu, minha mulher foi a ela, falou qualquer coisa. Elis olhou para mim, um para o outro, e veio o abraço, demorado, apertado, chorado. Parecia filme mexicano da Peimex. Ou novela da Glória Magadan. Mas eram apenas duas pessoas que, por contingências, quase imposições da vida, tinham deixado de se falar, de se enriquecer mutuamente, durante tanto tempo. Chorei, e mostrei os olhos, vermelhos, para ela. E me lembrei do dia da estréia do seu primeiro show na noite carioca, aquele já narrado, do Bottle's: eram 10 da noite, Elis passando a mão sobre a cabeça de meu filho Renato, no berço, com meses de idade (hoje ele é universitário), para dar sorte (e deu), antes de enfrentar as feras. Com maquilagem emprestada lá de casa, então na Rua Canning, 22, eu inquilino do Fernando Sabino. E me lembrei também daquela outra noite, anterior, a do Alcazar. O tal dia em que tudo seria seu tinha chegado. Mas ela não parecia uma pessoa feliz. De uma entrevista que fizemos então, guardei uma frase que pode ser repetida como um retrato dessa mulher maravilhosa: "E mais provável me encontrar na cozinha do que numa chaise-longue fazendo cara de Barbara Strelsand."

Elis era assim.,

Elis Regina



Entrevista concedida a Veja(25/10/1978), a Regina Echeverria, durante a temporada do show Transversal do Tempo.


Veja — Como foi que sua experiência no engarrafamento se transformou num espetáculo?
ELIS — Eu tinha um contrato assinado com o Teatro Leopoldina em Porto Alegre. E, entre fazer um recital, um concerto simplesmente, preferi chamar algumas pessoas para dirigir, iluminar e coisas do tipo. Aí foram surgindo idéias. Aquele engarrafamento me deixou uma impressão muita forte, principalmente porque eu estava grávida e me senti indefesa naquela hora. Tinha helicópteros de um lado, cavalos de outro, gente correndo por todos os lados. E eu estava ali, sem ter escolhido isso. Estava fechada dentro de um táxi, com medo, sem poder falar com o chofer, porque você nunca sabe com quem você anda, e o Ubaldo tomou conta de mim. A analogia veio depois, porque na hora você faz a fotografia, a ampliação vem depois. Quer dizer, assisti, ao vivo, a falta de respeito que está solta pelo ar. A falta de respeito existe para com o rio, a pessoa, a árvore, o passarinho. Esse desrespeito, na verdade, criou uma situação de impasse. Você sabe que o sinal de trânsito só vai ser aberto quando o guarda resolver abrir. Enquanto isso, você está dentro de um táxi e tudo acontecendo. Você imagina saídas, mas o sinal não abriu, o que podemos fazer? Ficamos sentados dentro de um táxi, numa transversal do tempo, esperando. Não te perguntam nada, não te pedem opinião.
* "Transversal do Tempo" estreou em Porto Alegre, seguindo depois para Lisboa, Roma, Milão, Paris, Barcelona, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte e Curitiba. Roteiro e direção: Maurício Tapajós e Aldir Blanc. Cenários e figurinos: Melo Menezes. Direção musical: César Camargo Mariano.
Veja — Isso tudo está jogado no espetáculo?
ELIS — Está dentro do espetáculo. A angústia, a claustrofobia e também as várias fugas. A alienação que pode vir através dos embalos de qualquer dia da semana. Na realidade, não é um espetáculo feito para dançar. Alerto que os bailantes se sentirão muito agredidos, portanto não me cobrem. Se quiserem assistir, já estou avisando antes. Também não estou dizendo que todo espetáculo deva ser assim e também não quero dizer que todos os outros farei desta forma. Mas eu peço desculpas, usando as palavras do Vitor Martins: "Me perdoem, os dias são assim". A partir do momento em que resolvi que minha arte deve ter ligação com a realidade em que vivo, mínima que seja, lamento imensamente a cara amarrada, a falta de espaço, a falta de amigos. Também não fui preparada para isso, é o que me está sendo dado para digerir. Gostaria que fosse diferente. Mas também, como a maioria das pessoas, estou esperando o guarda acionar a mudança de cor no sinal. Enquanto isso, eu canto um sinal de alerta.
Veja — Esse sinal de alerta pretende exatamente o quê?
ELIS — Mostrar o momento político de impasse em que vivemos e o resultado dos momentos políticos que nos trouxeram a esse impasse. O partido político com o qual você conta para ser de oposição arregla e 41 saem da sala, se escondem debaixo do tapete ou no banheiro, só pode ser. Isso é uma porcaria quando você está nas portas do 15 de novembro e tem que votar nesse partido de novo. Agora, vai votar no outro? Não, vota nesse e continua tudo na mesma. Esse é o impasse, a falta de escolha, a falta de espaço, de ar, de confiança, de relaxo.
Veja — Você acha que depois do "Falso Brilhante" não havia condições de apresentar um simples recital?
ELIS — O artista não pode aceitar, em hipótese alguma, a rotulação de fora para dentro, quer dizer, toda e qualquer ação de cima para baixo tem que ser, imagino, rechaçada. Eu não posso, de nenhuma maneira, me sentir coagida. Porque, se eu começar a aceitar esse tipo de imposição de fora para dentro, eu estarei aceitando o rolo compressor. E me parece que várias áreas da nossa sociedade brigam hoje em dia, justamente, para não aceitar o rolo compressor.
Veja — Estaria aí a explicação para as diversas fases de sua carreira?
ELIS — Acho que sim. E também explica a precipitação de uma série de pessoas que não permitem ao ser humano desenvolver-se naturalmente. Existe uma série de lacunas que precisam ser preenchidas. Então, quem tiver disponibilidade para carregar o fardo, vai ser usado, na medida em que ele deixa ser usado. Eu falo isso porque quando pintei tinha 20 anos e sequer quiseram me permitir, num determinado momento, fazer as estripulias normais de uma adolescente. Já começaram jogando nas minhas costas uma sobrecarga violentíssima, que talvez eu tivesse condições de arcar com ela agora, aos 33. Foi uma violência, mas se foi cometida, eu permiti. No final das contas, uma mão lava a outra. E as diversas fases pelas quais fui passando determinaram-se, evidentemente, por um processo de amadurecimento e também por sufocos momentâneos. Parti do princípio de que uma cabeça conturbada não consegue organizar atos lúcidos. Então, acho que agindo, agitando, sentindo capacidade para desenvolver, criar, retomar e iniciar uma série de coisas, não é possível fazer julgamentos. Julgar uma pessoa de 33 anos chega mais ou menos na raia do ridículo. Eu ouvi pessoas dizendo que o Chico Buarque já era, quando ele tinha 25 anos de idade. A verdade é que, naquele momento, o que interessava era outro tipo de manifestação musical que estava pintando no país. E, no entanto, temos aí o Chico Buarque quase entronizado, a figura de nosso segundo patriarca.
Veja — Em termos de postura artística, de escolha de repertório, no que exatamente o tal rolo compressor chegou a você?
ELIS — Teve uma fase infantil, ou juvenil, eminentemente romântica. Foi quando cheguei ao Rio de Janeiro e comecei a cantar músicas que se pareciam muito com o que eu ouvia na aula do professor Jorge, o zorro vingador dos meus 18 anos. E, como toda pessoa que está saindo da escola, não participando de nada efetivamente, não lançando profundidade em nada, acaba se tornando superficial. Eu achava que era correto porque assim eu tinha ouvido e batia com meu conceito de justiça. Mas era muito romântico.
Veja — Foi uma fase mais emotiva do que verdadeira.
ELIS — Exato. Depois, evidentemente entrou uma coisa que me chamou muita a atenção, que foi a paixão pelo som da minha voz. Quer dizer, uma pessoa estrábica, baixinha, gordinha, pobre, tudo ao contrário, de repente vira a cinderela. E cinderela mesmo, com abóbora à meia-noite e fada madrinha — que era a TV Record, o "Fino da Bossa". Mas as pessoas não dão tempo nem desculpam a infantilidade. Isso realmente é uma pobreza. Eu me vi, de uma hora para outra, na sala com o príncipe e podia até ser que o sapatinho de cristal coubesse no meu pé. E uma certa bronca que tenho é que não me deram nem tempo para curtir este barato. Começou uma polêmica em torno de minha pessoa com falatórios sobre coisas que eu realmente tinha feito e outras que diziam que eu havia feito. E então confundiu, embolou o meio de campo e até organizar tudo de novo demorou uns cinco, seis anos. Se a pressão não fosse tão forte, talvez eu tivesse passado por essa fase não cinco anos, mas um ano e meio.
Veja — No final das contas, a sua fase de deslumbre durou mais do que devia?
ELIS — As pessoas muito jovens, quando se sentem pressionadas demais, parece que fazem questão de reincidir no erro, para mostrar que elas é que estão certas. E foi assim não só com a minha carreira, mas com minha vida pessoal também. Até que eu fiquei grande, virei mãe, cresci. Já não tinha mais mãe, eu era a mãe. Aí voltei a me dar o direito de administrar minha vida e fazer dela o que bem entendesse, desde dormir com quem quisesse até trabalhar com quem resolvesse. E até mais recentemente eu me mandar profissionalmente, eu ser meu próprio patrão. Acho que esse processo, mesmo lento, é uma chance que deveria ser dada a toda e qualquer pessoa. Porque, afinal, quem não deu as suas mancadas?
Veja — Você considera um erro, então, a sua fase perfeccionista, quando muitos te acusavam de ser uma cantora técnica e fria?
ELIS — Durante um certo tempo eu achava que havia um certo exagero por parte das pessoas. De uns tempos para cá — inclusive por causa da constante reafirmação dessa fase tecnicista —, eu fui dar uma ouvida nos discos que gravei nessa época. Era uma questão de me confrontar comigo mesma e saber onde estava a sementinha que gerou tudo. Confesso que 80% do que fiz, eu refaria de uma forma completamente diversa.
Não sei se estava errado porque eu estava errada, ou porque hoje estou completamente diferente, minha cabeça mudou estupidamente de dois anos para cá. Objetivamente, acho que a crítica existe e não é infundada. Agora, o que determinou, eu também não estou mais a fim de saber, porque estou vivendo em 1978 e faz muito tempo que chutei a análise para escanteio.
Veja — Não seria, no caso, uma supervalorização da técnica de cantar, de se apresentar, onde a sua antiga emoção deixou de existir?
ELIS — Talvez a emoção estivesse motivo. Talvez, se ela saísse, seria algo tão massacrante para mim que a saída foi correr, fugir da raia. Agora, técnica de cantar eu tenho e vou morrer tendo. Hoje talvez eu esteja muito mais tranqüila em relação ao passado e mesmo ao presente, para poder até controlar o grau de emoção que posso soltar, para não me machucar. Você não pode ser uma Joana D’Arc todos os dias porque acaba realmente queimada. O que consegui com o tempo foi não bloquear a emoção, deixar que ela venha, mas não ser a Joana D’Arc, não ter pena de mim. Eu sou uma profissional, quando estou no palco represento de verdade, mas sei que estou apenas representando. Quem me ensinou isso foi o Ademar Guerra, ele explicou até onde podemos ir para chegar na emoção e o que fazer para que a emoção continue presente diariamente. Mas que você tenha consciência de que está representando e não se mate todos os dias. Todo mundo precisa de técnicas para viver. O que tenho na garganta é um instrumento. Se o pianista precisa estudar anos a fio para executar seu instrumento, por que eu não tenho que estudar também para usar minha garganta, ou saber usar o microfone que é o meu instrumento auxiliar, que amplia minha voz?
O problema é que existe muita fantasia em torno da minha profissão. É muito paetê, muita lantejoula, mas no fundo esse é o verdadeiro falso brilhante. É mentira tudo o que cerca a minha atividade. Eu como igual a todo mundo, durmo, gosto de ser elogiada, quando sou criticada fico ressentida, mas vou procurar depois saber o que aconteceu. Só que eu dou capa de revista e outros não dão.
Veja — Essa guinada na sua vida, há dois anos, se explica no espetáculo "Falso Brilhante"?
ELIS — Não, o "Falso Brilhante" foi a eclosão de uma guinada que começou há seis anos. Foi mais ou menos como um quebra-cabeças, juntando pecinhas. E o problema todo era reconstruir esse quebra-cabeças. A conclusão foi enfim o espetáculo, mas também não foi uma explosão para ser aquela e acabar. Estou dizendo que estou viva, quero fazer minhas coisas, continuar não aceitando a rotulação de fora para dentro, de cima para baixo. E vou continuar a vida inteira de camicaze por uma questão de temperamento. É isso que me faz ficar de pé, me instiga, me põe em questionamento eternamente.
Veja — Esse seu comportamento está colocado em "Transversal do Tempo" e tem recebido algumas críticas. Chegaram a dizer que o show tem um tom panfletário.
ELIS — Panfletário porque o dom da contestação é propriedade privada de uns três ou quatro no país. Disseram também que o show falava de coisas passadas, que aconteceram em 1968. Agora, eu não tenho culpa se essa pessoa está vivendo num bairro em que não acontecem coisas que estão acontecendo no meu. Estou vendo. Vi no Recife, em Belo Horizonte, Salvador, Curitiba. Será então que só eu estou vendo? Então os jornais estão mentindo todos as dias. O que você pode discutir é a necessidade ou não de uma pessoa fazer um espetáculo desse tipo. Aí eu pergunto: dá licença de eu achar que sim? Eu sou assim, não fui sempre, fiquei. Azar o meu. Agora, otimista eu continuo sempre.
Veja — Foi a propósito desta postura que se acabou ressuscitando o fato de você ter se apresentado nas Olimpíadas do Exército em 1969.
ELIS — Eu cantei nessas Olimpíadas e o pessoal da Globo todo também participou. Todos foram obrigados a fazer. E você vai dizer que não? Eu tinha exemplos muito recentes de pessoas que disseram não e se lascaram, então eu disse sim. Quando apareceu isso eu procurei o Aldir Blanc e disse: "Poxa, que sacanagem". E ele falou: "Você cedeu como cederam os 90 milhões". Agora, é fácil acusar. Quero saber o que essa pessoa estava fazendo quando eu estava cantando nas Olimpíadas. E tem mais, numa situação excepcional, idêntica, eu não sei se faria de novo. Porque eu morro de medo. Faço todos os espetáculos me borrando de medo todos os dias. Faço, mas com medo. E se mandar parar eu paro, porque medo eu tenho.
Veja — Outra acusação que geralmente fazem à sua pessoa é de ser geniosa, temperamental. É verdade?
ELIS — Acho isso uma grande irresponsabilidade. Irresponsabilidade em relação ao tipo de informação que você passa adiante sobre uma certa pessoa. O tipo de mentalidade e imagem, conceito que está criando a respeito de uma pessoa. Como é que eu posso dizer, por exemplo, que o Jair Rodrigues é um cara que toda vez que canta faz de uma única maneira, se faz oito anos que não trabalho com ele? Como é que você pode dizer que uma pessoa "é" alguma coisa? Digo isso porque as pessoas que costumam fazer este tipo de crítica não me vêem há muito tempo. As pessoas não dão chance a ninguém de se modificar, de evoluir, de regredir. Porque no dia em que ela tiver que reorganizar o seu fichário na pasta ou no compartimento Elis Regina, vai dar muito trabalho. Eu não tenho a menor intenção de ser simpática a algumas pessoas. Me furtam o direito inclusive de escolher. Sou obrigada a aceitar quem passar pela minha frente. Me tomam por quem? Uma imbecil? Então eu não tenho gosto, não tenho preferência, não tenho padrões, modelos, nada disso? Sou algo que se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos queriam, na realidade. Mas não vão conseguir, porque quando descobrirem que estou verde, já estarei amarela. Eu sou do contra. Não vai me dirigir não. Decifra-me ou devoro-te? Não vai me devorar e nem me decifrar, nunca. Eu sou a esfinge, e daí? Nesse narcisismo generalizado, me dá licença de eu ser narciso um pouquinho comigo mesma? De fazer comigo o que bem entender, ser amiga de quem quiser, de levar para minha casa as pessoas de quem eu gosto? Qual é a faceta que estou mostrando pra você? A de uma profissional de música e ponto final. Porque bem poucas pessoas vão conhecer a minha casa. Sou a Elis Regina de Carvalho Costa que poucas pessoas vão morrer conhecendo.







Elis e Tom


Oi pessoal.
Devido ao lançamento do DVD-Áudio de Elis e Tom, resolvi colocar aqui uma matéria de Walter Silva para a Folha de São Paulo de abril/1974, dois meses antes do lançamento oficial do disco "Elis e Tom", que foi em junho do mesmo ano, onde ele teve a oportunidade de ouvir o tape original muito antes do LP ser colocado à venda e pode fazer comentários à respeito do disco e de cada música. Assim, todos poderão ter a oportunidade de saber um pouquinho mais desse disco que pra mim (e com certeza pra muitas pessoas), é sem dúvida um dos maiores e melhores encontros da música popular brasileira.

Vale lembrar de ítens que ele cita, como por exemplo, a música "Bonita", que sabemos que não foi incluída no disco... de um breve comentário de um filme que Elis ia fazer... das três horas de duração da gravação para o especial para a TV Bandeirantes... sem contar que, geralmente um artista grava mais músicas do que as que vão no disco, para assim poder escolher e colocá-las no LP... entre outras coisas. De resto, ficamos aqui chupando o dedo mais uma vez... e ansiando Elis cada vez mais!

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FOLHA DE SÃO PAULO - 17/04/1974

ELIS E TOM, NUM DISCO MUITO ESPECIAL

"Em absoluta primeira audição nacional a Folha Ilustrada ouviu o disco de Elis Regina e Tom Jobim gravado nos estúdios da MGM em Los Angeles. Roberto de Oliveira, empresário de Elis Regina, ligou seu possante equipamento de som e o crítico Walter Silva ouviu este importante encontro dos dois maiores nomes da música popular brasileira."

Era muito importante e necessário o encontro. Só que os caminhos levavam Elis e Tom cada um pro seu lado, impedindo que o encontro se concretizasse. Ora os compromissos internacionais, ora as mudanças de cidade em cidade, diferentes circunstâncias não permitiam que nosso maior autor e nossa maior intérprete se fixassem e juntos trabalhassem.
Foi preciso que até o acaso contribuísse, para que, em Los Angeles, Elis e Tom se vissem dentro de um estúdio e nele unissem seus trabalhos. Muito mais do que um encontro histórico, foi um encontro de saudades. As saudades de Tom e as de Elis representavam a saudade de toda uma época importante para os destinos de nossa música popular. Esse instante ficou registrado. A "Phonogram" espera lançar o resultado do encontro em junho, quando, somado ao espetáculo que ambos farão (em apenas uma apresentação) no Teatro Municipal de São Paulo e ao show de Elis Regina no Teatro Maria Della Costa, muitos ficarão sabendo da importância desses dois nomes da divulgação de nossos usos e costumes musicais.
Elis dizia:
- Tom me assusta um pouco. Sei não, mas é importante demais conviver com esse monstro sagrado de nossa música e a responsabilidade de gravar ao seu lado balança um pouco qualquer pessoa.
Depois de um rápido primeiro contato, Elis concluiu:
- Foi maravilhoso e Tom é divino. Nunca vi pessoa mais simples e encantadora. Ele é como suas músicas e estou muito à vontade, apesar de comovida.
Os estúdios da MGM em Los Angeles, estavam superlotados de músicos brasileiros e norte-americanos, entre os quais o autor de "The shadow of your smile", Mendel, que ficou entusiasmado com o som de Tom e com a divisão rítmica de Elis.
Presentes ainda a cantora Eydie Gourmet, Eumir Deodato, Oscar Castro Neves, que até participou da gravação tocando violão em algumas faixas, e toda uma "patota" de músicos que lá foram pra curtir o som brasileiro de Tom, Elis e César Camargo Mariano.
Houve um momento em que o técnico teve que pedir a alguns que se retirassem, pois estavam atrapalhando a gravação.
Nada foi antecipadamente preparado. As conversas iam surgindo, as músicas eram sugeridas e sendo gravadas.
Elis e Tom, mais César Camargo Mariano, pareciam ter ensaiado toda a vida, tal a afinidade que os unia.
Ora no piano elétrico, ora no piano convencional, Tom e César se revezavam e o balanço da "cozinha" ia se entendendo com o que Elis queria para acompanhá-la.
Roberto de Oliveira, empresário de Elis, ficou tão à vontade que até achou tempo para um pulinho até Houston, onde assistiu a uma feira de material técnico de televisão, ficando entusiasmado com as camaras que operam desde, com uma simples luz de vela, até à explosão de dois mil watts, corrigindo-se automaticamente.
Na sua volta, o disco estava quase concluído.
João Gilberto mandou chamá-lo em Nova Iorque e acertou com Roberto uma apresentação em televisão em São Paulo, faltando apenas marcar a data exata. O preço já está combinado: doze mil dólares.
Entre outras coisas resultantes da gravação do disco de Elis com Tom Jobim, ficou acertado que Elis fará apresentações nos Estados Unidos, mas "numa boa", segundo disse Roberto, e não como tantos artistas brasileiros têm feito. Elis irá pelo seu preço, ou seja, no mínimo quatro mil dólares por apresentação e em programas de real importância e locais de primeira categoria.
O repertório escolhido pelo produtor Aloisio de Oliveira foi dos mais espontâneos, sem obedecer a qualquer injunção artística ou comercial. As músicas foram sugeridas e não impostas. A impressão que se tem ao ouví-las, é que foram gravadas na própria sala de visitas da gente, tal a naturalidade encontrada.
Como disse Roberto de Oliveira, foi um encontro de saudade e "nada mais brasileiro do que isto".
Toda a gravação foi filmada. Com duração de três horas, suas partes serão montadas no Brasil, para exibição num especial a ser apresentado pela TV Bandeirantes e produzido pela Clack. Esse disco de Elis não interrompe a séria de lançamentos (um por ano) feita anualmente pela sua gravadora.
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COMENTÁRIO
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ÁGUAS DE MARÇO (Tom Jobim):
Essa consagrada composição abre o disco (pelo menos na fita original, que poderá vir a ter outra montagem e ainda outros instrumentos acrescidos), com Tom e Elis cantando juntos. Domínio total nos aspectos rítmicos e melódicos. Tom mostra uma segunrança nunca antes revelada como cantor. O som agudo da piano com flauta em uníssono, já usado por Tom em outras gravações, está presente mais uma vez, muito mais como marca registrada do que como necessidade harmônica. Termina entre risos, quando Elis imita o jeito de Tom cantando. Uma festa em família de músicos, onde o piano elétrico de César Camargo Mariano prepondera com aquele balanço inconfundível. Tom e Elis até brincam no contraponto final da letra, dando um verdadeiro show de divisão rítmica.

POIS É (Tom Jobim / Chico Buarque):
Composição antes só gravada por Chico, mostra como Elis é segura e como o bom gosto de Tom Jobim se casa com a incrível facilidade interpretativa de Elis.

MODINHA (Tom Jobim / Baden Powell / Vinícius de Moraes):
Antes só havia sido gravada pela cantora Lenita Bruno, que tem uma voz de contralto e uma escola lírica evidente e por Elizeth Cardoso. Elis abrandou um pouco as notas mais agudas, acrescentando uma suavidade bem poucas vezes revelada em suas interpretações para músicas desse gênero. Aqui Tom aparece também como arranjador, depois de mais de dez anos sem escrever um arranjo. As flautas (instrumentos prediletos do arranjador Tom Jobim) prevalecem.

BRIGAS NUNCA MAIS (Tom Jobim / Vinícius de Moraes):
Nessa conhecida composição da dupla mais importante de nossa música popular, dois estilos de balanço se mostram com muita evidência. O de Tom e o de César Camargo Mariano. Elis sorri e quem ouve canta.

FOTOGRAFIA (Tom Jobim):
Aqui, Elis "estraçalha", para usar um termo bem conhecido no ambiente musical. Nota-se nesta faixa um som muito especial do excelente guitarrista Helinho, que se incorporou agora ao grupo que acompanha Elis. Ele já havia participado da gravação do LP de Maria Alcina. Elis aparece como uma nova cantora, e que aliás é muito comum em nossa melhor intérprete.

SONETO DA SEPARAÇÃO (Tom Jobim / Vinícius de Moraes):
Tom desinibido, seguro, afinado, cantando com seu próprio arranjo e a presença enorme de Elis. As cordas regidas por Bill Hitchcock são o ponto alto, junto com o belo de Vinícius.

SÓ TINHA DE SER COM VOCÊ (Tom Jobim / Aloísio de Oliveira):
Ritmo bem presente e aquele balanço incrível de Elis, para esta linda composição lançada no show "O Remédio é Bossa" (Teatro Paramount, 1964) pelo próprio Tom.

TRISTE (Tom Jobim):
Luisão (contrabaixo) abre a faixa com uma "paulada" de ritmo e, não se intimidando, acompanha Elis, nesta música que será usada pra mostrar a solidão de Brasília, num filme com Elis, que será rodado brevemente. Ainda uma vez presença marcante do guitarrista Helinho.

POR TODA A MINHA VIDA (Tom Jobim / Vinícius de Moraes):
Elis dá a esta música puramente descritiva de Tom um tratamento que nunca antes lhe fora dado. Percebem-se nela cores belas, pálidas e suaves, dentro da imensa capacidade de descrever de Tom e interpretar de Elis.

CORCOVADO (Tom Jobim):
Começa com ritmo mais lento e flautas e cordas revezando-se e misturando-se, antes da entrada de Elis, que dá a esta composição uma das suas melhores interpretações. Ao final há um "scat" entre Tom e Elis, que enriquece sobremaneira a faixa, apoiado pelas flautas.

BONITA (Tom Jobim / Ray Gilbert):
Elis canta em inglês, exatamente como a música foi feita para Silvinha Teles interpretar. Ao piano, Tom vibra e acrescenta mais ainda à faixa.

RETRATO EM BRANCO E PRETO (Tom Jobim / Chico Buarque):
Nesta faixa multiplica-se a responsabilidade de Elis. Depois da interpretação de João Gilberto no especial feito com Caetano e Gal na TV Tupi, pouco se lhe poderia acrescentar. Elis não só acrescenta, como supera. Das mais importantes faixas do disco, esta que é das mais lindas composições de nossa música popular. Incríveis a seguranda e a seriedade de Elis nesta música.

CHOVENDO NA ROSEIRA (Tom Jobim):
Dentro do pouco comum andamento de 6/8, Elis e Tom escrevem mais um capítulo da história de nossa música popular.

O QUE TINHA DE SER (Tom Jobim / Vinícius de Moraes):
Simplesmente acompanhada pelo piano de Tom, Elis mostra o quanto é grande a sua categoria ao cantar coisas sérias.

INÚTIL PAISAGEM (Tom Jobim / Aloisio de Olvieira):
Elis e Tom, mais uma vez com muita naturalidade, vão mostrando esta bela página criada por Silvia Teles, dentro de um clima de muito equilíbrio interpretativo. Dão realmente a impressão de que deveriam estar cantando juntos há mais tempo. Uma faixa empolgante e rica de variedades harmônicas e interpretativas.
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Espero que gostem.
Abraços
Leandro - Campinas/SP

P.S.: Genteim... afff... deu um trabalho ter que digitar tudo isso... mas, vale a pena... tudo pelo amor à música e divulgação do que é bom, já que as próprias gravadoras não fazem isso, fazemos a nossa parte!


Leandro ,está aqui registrado toda a minha consideração por você ter digitado este texto (Elis e Tom)maravilhoso da Elis que só pude ter acesso a ele graças a sua boa vontade, atenção e carinho.
Um abraço.


Ulisses Giovani.



Nada será como antes...