Elis Regina Especial 4
Nem ter filho é melhor que cantar
Elis Regina parte 4
César Mariano: "Elis estava feliz, inteira e feliz"
Elis marcaria o lançamento de sua carreira internacional. Elis e eu trabalharíamos com Quincy Jones, possivelmente iríamos retomar os contatos com Wayne Shorter, conversaríamos com o ex-produtor de John Lennon, uma série de contatos enfim que corresponderíamos que se pensava de Elis no exterior: todos levavam muita fé nesse projeto. Durante 11 anos, fomos, éramos uma pessoa só, vivendo as 24 horas de cada dia numa união perfeita. Não havia tempo para se fragmentar marido e mulher; os dois formavam uma coisa só. Elis era muito importante na minha vida como importante foi ter gerado com ela duas crianças e participado da vida de uma outra. Diante de tudo isso, tudo o que por vezes teria acontecido, acabava sumindo diante da profunda beleza, diante da humanidade de Elis. Elis era um gênio e um gênio é um gênio, tem vários gênios. Elis tinha pontos de vista sólidos que nenhum ser humano impediria de levar adiante. Fosse a hora de cortar o peixe na cozinha, fosse a hora de brigar pela classe, qualquer que fosse a classe. Elis era uma mulher inteira, saudável, feliz. Por que a separação? Porque entendemos que nossas missões estavam cumpridas. Elis e eu éramos espiritualistas. Não no sentido religioso mas no sentido, digamos, científico. O ciclo estava completo. Não existiam problemas de forma alguma; houve apenas a necessidade de cada qual seguir o seu caminho. E foi o que resolvemos, em nome das crianças principalmente, parar para pensar. Cada um tomou o seu rumo. Isso foi há seis meses. Quanto ao que o Ronaldo disse de mim, eu digo que não fiz mais do que a minha obrigação. Se a sua intenção foi a de me elogiar, eu agradeço, mas acredito que esse elogio não me cabe. Ronaldo era o pai material de João Marcelo, porém o pai presente, o pai espiritual, era eu. João me chama de César (e não de pai) e isso terminou passando para os meus filhos que, no trato direto, também me chamam de César, a não ser que haja estranhos diante deles. Meu relacionamento com o Ronaldo sempre foi muito legal. Eu agora estou pleiteando uma reunião, encontrar-me com ele, para resolver sobre as crianças. Os três devem ficar comigo, com o João Marcelo sempre perto do Ronaldo. Isto atendendo ao próprio pedido do menino, que disse claramente que não quer ficar longe dos irmãos.
"Falarem em suicídio é um disparate"
Considero o resultado do laudo cadavérico um grande absurdo. Não tive condições ainda de pensar profundamente no assunto, mas em principio me pareceu um grande absurdo. Foi surpresa para mim esse resultado. Mais: não acredito em hipótese alguma em suicídio. Com essa disposição da Elis de viver, falar em suicidio é um disparate. Pensando em tudo, vejo que paira uma grande incoerência. Não sei explicar. Eu tinha muito contato com Elis e não sei explicar o que estava acontecendo. O tempo talvez nos mostre tudo mais claro. Acho que em tudo isso há uma coisa multo positiva. Pelo menos, as pessoas prestarão atenção nisso. Cuidado: essas coisas matam; deixam buracos enormes nos que ficam. Por ironia do destino, talvez tenha sido um alerta geral. Nos contatos que tive com músicos e colegas, todos se mostraram perplexos, apavorados. Só que esse alerta velo em hora errada, com alguém que não tinha nada a ver. Vivi 11 anos com Elis e nunca soube de qualquer aproximação dela com isso que dizem que a matou. A grande surpresa que estávamos preparando para Elis teria acontecido na véspera de sua morte: planejávamos chegar segunda-feira a São Paulo e comunicar a ela que alguns arranjos de base que o disco que ela começaria a gravar dia 25 estavam prontos e feitos por mim. No sábado anterior, eu tinha telefonado para Elis e avisado a ela que chegaria a São Paulo na segunda para conversarmos, rever os filhos etc. Elis me pediu que não viesse: ela sabia que eu tinha sofrido há pouco um sério acidente de moto (quebrei três dedos da mão direita e você pode avaliar o que isso significa para um pianista) e preferiu que eu ficasse no Rio me recuperando. Mas mesmo assim eu combinei de ir e então, diante dela, revelaria a surpresa. Não foi possível: algumas bases do disco que estou produzindo para o Cauby não ficaram prontas e eu não pude ir. Mas assumi comigo mesmo o compromisso de que o trabalho iniciado com Elis não vai terminar. Esse disco tinha que sair: era uma coisa muito forte, uma produção em que a palavra marcante era viver. O disco de Elis seria uma exaltação a vida, pode-se dizer as-sim. Pretendo dar sequência nele. Eu e meus filhos vamos prosseguir. Elis era uma alegria, era vida jorrando pelos poros. Vamos prosseguir: eu, nossos filhos e quem mais estiver envolvido. 17 de março era a data marcada para o lançamento do disco, a data de aniversário de Elis. Nessa data, pretendo fazer alguma coisa. Não sei o que é. Só sei que vou fazer. Este depoimento me é também muito útil para demonstrar, sem demagogia, minha total solidariedade ao Samuel. Eu quero, publicamente, endossar tudo o que ele disse a imprensa. Há pelo menos 7 anos que Samuel está em nossas vidas; em todos os momentos profissionais e pessoais. Fico multo feliz de ter sido o Samuel a pessoa a ficar com ela.Nesses últimos seis meses, Elis era uma pessoa muito feliz: graças a Samuel, graças aos filhos, graças ao público. Se eu tenho alguém para me segurar, alguém em quem me apoiar, alguém que me deixe de pé, esse alguém é o Samuel. Graças a Deus, pude constatar que, na sua última semana de vida, Elis estava feliz. absolutamente inteira e feliz!"


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